
Por uma década, o acadêmico russo Igor Panarin prediz que os E.U.A. se desintegrarão em 2010. Na maior parte desse tempo, ele admite, poucos levaram seu argumento - que um colapso econômico e moral iria desencadear uma guerra civil e a eventual ruptura dos E.U.A. - muito a sério. Agora ele encontrou um ávido público: a mídia do Estado Russo.
Nas últimas semanas, ele tem sido entrevistado, por vezes mais de uma vez por dia, sobre os seus prognósticos. "É um recorde", diz Prof Panarin. "Mas eu acho que a atenção vai crescer ainda mais."
Prof Panarin, 50 anos, não é uma figura qualquer. Um ex-analista da KGB, é decano da academia do Ministério Russo dos Negócios Estrangeiros para futuros diplomatas. Ele é convidado a recepções no Kremlin, dá palestras para estudantes, teve livros publicados e aparece na mídia como um especialista nas relações entre os EUA e a Rússia.
Mas é a sua previsão sombria para os E.U.A. que é música para os ouvidos do Kremlin que, nos últimos anos, tem culpado Washington por tudo, desde a instabilidade no Médio Oriente até a crise financeira mundial. Opiniões do Sr. Panarin também encaixam perfeitamente com a narrativa do Kremlin que a Rússia está retornando ao seu legítimo lugar no mundo após a fraqueza da década de 1990, quando muitos temiam que o país estaria economicamente e politicamente falido e fragmentado em territórios distintos.
Um homem educado e alegre com um buzz corte, Sr. Panarin insiste que não odeia americanos. Mas avisa que as perspectivas para eles são terríveis.
"Há uma chance atual de 45% a 55% de a desintegração ocorrer", diz ele. "Poderia existir quem se regozijar-se no processo", acrescenta, com o semblante sem indicar emoções. "Mas se nós estivermos falando com a razão, esse não seria o melhor cenário -- para a Rússia." Apesar de que a Rússia se tornaria o país mais poderoso no cenário mundial, diz ele, a sua economia sofreria, pois atualmente depende fortemente do dólar e do comércio com os E.U.A.
Sr. Panarin postula, em síntese, que a imigração maciça, o declínio econômico e a degradação moral irá desencadear uma guerra civil no próximo outono e o colapso do dólar. Por volta do final de junho de 2010, ou no início de julho, diz ele, os E.U.A. se fragmentarão em seis pedaços - com Alasca retornando ao controle russo.
Além de aumentar a cobertura nas mídias estatais, que são estritamente controladas pelo Kremlin, as idéias do Sr. Panarin estão sendo amplamente discutidas entre os peritos locais. Ele apresentou sua teoria em um recente debate do Ministério dos Negócios Estrangeiros. A principal escola de Relações Internacionais do país tem recebido-o como orador principal. Durante uma apresentação no canal estatal Rossiya, a estação editou entre seus comentários filmagens de filas de sopa e multidões de pessoas sem abrigo nos E.U.A. O professor também foi destaque no canal de propaganda do Kremlin, em inglês, o Russia Today.
A visão apocalíptica do Sr. Panarin "reflete um acentuado grau de anti-americanismo na Rússia de hoje," diz Vladimir Pozner, um proeminente jornalista televisivo na Rússia. "É muito mais forte do que era na União Soviética."
Sr. Pozner e outros comentaristas russos especialistas sobre os E.U.A. não concordam com as previsões do Sr. Panarin. "Idéias insanas geralmente não são discutidas por pessoas sérias", diz Sergei Rogov, diretor do Instituto governamental de Estudos Norte-americanos e Canadenses, que pensa que as teorias do Sr. Panarin não são consistentes.
O currículo do Sr. Panarin inclui muitos anos na KGB soviética, experiência esta compartilhada por outros funcionários russos do alto-escalão. Seu escritório, no centro de Moscou, mostra o seu orgulho nacionalista, com flâmulas na parede com o emblema da FSB, a agência sucessora da KGB. Também é cheio de estatuetas de águias; uma águia com duas cabeças era o símbolo da Rússia czarista.
O professor diz que começou sua carreira na KGB em 1976. Na Rússia pós-soviética, obteve um doutorado em ciência política, estudou a economia dos E.U.A. e trabalhou para FAPSI, então, o equivalente russo da Agência de Segurança Nacional norte-americana. Ele diz que fez previsões estratégicas para o então presidente Boris Yeltsin, acrescentando que os detalhes eram "confidenciais".
Em Setembro de 1998, ele participou de uma conferência em Linz, na Áustria, dedicada à informação na guerra, ou seja, a utilização de dados para obter uma vantagem sobre um rival. Foi quando, diante de 400 outros delegados, ele primeiramente apresentou sua teoria sobre o colapso dos E.U.A. em 2010.
"Quando eu pressionei a tecla em meu computador e o mapa dos Estados Unidos desintegrou, centenas de pessoas exclamaram surpresas”, ele recorda. Também diz que a maioria do público era cética. "Eles não acreditam em mim."
Ao final da apresentação, ele diz que muitos delegados pediram para ele autografar cópias do mapa que mostrava os E.U.A. desmembrados.
Ele baseia a previsão em dados confidenciais que lhe foram fornecidos por analistas da FAPSI, diz ele. Ele prevê que as tendências econômicas, financeiras e demográficas irão provocar uma crise política e social nos E.U.A. Quando começar, diz ele, os Estados mais ricos irão reter fundos do governo federal e efetivamente se separar da União. Agitações sociais e inclusive uma guerra civil se seguirão. Os E.U.A. serão então divididos ao longo de linhas étnicas e seguirão influências de potências estrangeiras.
O Estado da Califórnia vai formar o núcleo do que ele chama de "A República Californiana" e será parte integrante da China ou sob influência chinesa. O Texas será o coração da "República Texana", um grupo de Estados que vão para o México ou cair sob influência mexicana. Washington/DC e Nova York farão parte de uma "América do Atlântico" que poderá aderir-se à União Européia. O Canadá vai agarrar um grupo de Estados do Norte que o Prof. Panarin chamada de "República Central Norte-Americana." O Havaí, ele sugere, será um protetorado do Japão ou da China, e o Alasca será subordinado à Rússia.

"Seria razoável para a Rússia reclamar o Alasca; foi parte do Império Russo durante um longo tempo". Uma imagem de satélite emoldurada do estreito de Bering, que separa o Alasca da Rússia como uma ameaça, está pendurada na parede de seu escritório. "Não está aí sem motivos", diz ele com um sorriso astuto.
Interesses na sua previsão foram revividos neste outono, quando foi publicado um artigo seu na Izvestia, um dos maiores jornais diários nacionais da Rússia. Nele, ele reafirmou sua teoria, chamou dívida externa dos E.U.A. "um esquema de pirâmide", e previu que a China e a Rússia iriam usurpar o papel de Washington como um regulador financeiro global.
Os americanos esperam que o presidente eleito Barack Obama "possa trabalhar milagres", ele escreveu. "Mas quando chegar a Primavera, será claro que não existem milagres."
O artigo levanta uma pergunta sobre a reação da Casa Branca à previsão do Prof. Panarin em uma conferência de notícias em dezembro. "Eu terei que declinar meu comentário", disse a porta-voz Dana Perino entre risos.
Para o Prof. Panarin, a resposta da Sra. Perino foi significativa. "O modo como foi formulada a resposta foi uma indicação de que a minha opinião está sendo escutada com muito cuidado", diz ele.
O professor diz que está convencido de que as pessoas estão levando sua teoria mais a sério. Pessoas como ele tiveram previsões cataclísmicas semelhante anteriormente, diz ele, e estavam corretas. Ele cita o cientista político francês Emmanuel Todd. Sr. Todd é famoso justamente por ter previsto o desaparecimento da União Soviética, com 15 anos de antecedência. "Quando ele previu o colapso da União Soviética em 1976, as pessoas riram dele", disse o Prof. Panarin.
Fonte(s) / Foto(s): The Wall Street Journal
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